O Tao do sexo



O tesão entre Maria Laura e Kim Tan-woo, salta aos olhos desde o primeiro e tempestuoso encontro dos personagens, no segundo capítulo de “Apenas por Hoje”. No entanto, antes que esse desejo chegue às vias de fato, o misterioso agente coreano tem que “ralar um queijo", como diríamos aqui em Minas, para convencer a recalcitrante escritora a transar com ele. Vá lá que ela tem as suas razões, para colocar panos quentes na tara e sair de fininho, afirmando que não quer saber disso. Mas suas razões não vem ao caso. Não neste post.


Também como é ditado corrente, água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Não fosse assim, esta história sexy e divertida não teria emplacado, em 12 jan. 2021, o primeiro lugar no ranking de ebooks mais baixados na Amazon Books. E por falar em ranking, não custa nada lembrar que o romance segue impávido, muito bem colocado nas listas do Wattpad!


Voltando ao caso, uma das cenas mais divertidas do livro se passa no Recanto das Letras, um espaço fictício em Paraty (RJ), que bem poderia ser de verdade, com seus livros, café coado e deliciosas tortinhas de damasco. Em certa parte do diálogo, e em favor das boas intenções, Kim Tan revela à Maria Laura que conhece o Tao Te Ching de “trás pra frente”. É claro, acaba deixando-a ainda mais abespinhada, pobrezinha, de tão desarvorada com a carga erótica que recebe daquele moço lindo e... bom, complete as lacunas.

“Devagar, ele levou sua mão à boca. Olhos cravados dentro dos dela, foi beijando cada um dos seus dedos. E entre um dedo e outro, passava vagarosamente a língua entre os vãos, simulando uma longa e langorosa sessão de sexo oral. Maria Laura amoleceu, semicerrou os olhos, suspirou, arrepiou da cabeça aos pés, sentiu a vagina latejar e os seios intumescerem. É. Aquilo estava ficando praticamente impossível... Puxou a mão com força, na tentativa de recobrar o juízo que se esvaía, literalmente, pelos vãos dos dedos.

– E depois? A gente faz um sexo animal, você me deixa louca...

– Louca, não! Feliz. – ele a interrompeu. E para seu desespero, piscou um dos olhos em sua direção. – Conheço o Tao Te Ching de trás pra frente...

Maria Laura suspirou de novo.

– Olha, não é surpresa nenhuma você ser versado nesse tipo de sacanagem! Aliás, surpresa seria se não fosse!

–Aigoooo! Que jeito de falar de uma tradição milenar de equilibrar os opostos!" ” (Trecho de Apenas por Hoje).


É, amigues leitores. A situação de Maria Laura é, no mínimo, desnorteadora. Tem razão o nervosismo da moça.

Mas, para quem também acredita que o Tao Te Ching é um livro de sacanagens, como esclareceu o "bem intencionado" Kim Tan, trata-se de uma tradição filosófica milenar, que preza o equilíbrio dos “opostos”. O Taoísmo é um sistema de crenças originário da China e tem como principal proponente o filósofo Lao Tsé, que ali nasceu por volta de 604 a.C. Embora o texto central do Tao Te Ching tenha sido atribuído ao próprio Lao Tsé, hoje se reconhece que a obra foi escrita cerca de dois séculos depois, compilando uma série de ensinamentos correntes na própria cultura chinesa.


A palavra Tao, literalmente, significa caminho e no Taoísmo também diz respeito ao funcionamento do universo. Para os seguidores do Tao, a vida é um equilíbrio de opostos, onde tudo o que ocorre provoca uma reação igual e de força contrária. É semelhante, portanto, à Lei de "Causa e Efeito" do Budismo. Para o Tao, porém, o que anima o universo é a interação de duas forças. O Ying, que é negativa, passiva e sustentadora e o Yang, que é positiva, ativa e consumidora. Tradicionalmente, compreende-se que o maior componente da natureza feminina é o Ying, enquanto que da natureza masculina é o Yang. Mas, como bem lembrou o Kim para a Maria Laura, quando ela o acusou de relegá-la à uma posição passiva na relação, só por ser mulher: "quem disse que eu sou o Yang?" Como doutrina, o Taoísmo chegou na Coreia no século 4 d.C. e constitui o antigo conhecimento coreano a respeito das leis que governam os fenômenos naturais.



Não é preciso muito esforço para perceber a relativa naturalidade com que os preceitos do Tao escorregaram para a sexualidade. Para nós, criados no ocidente, dentro dos limites da tradição judaico cristã, o sexo permanece sendo cercado de tabu. Por isso mesmo, o inoxidável Zé Ramalho já declamou que “isso explica porque o sexo é assunto popular...”. Bom, na China, como de resto em praticamente toda a Ásia, as questões relativas ao sexo sempre foram encaradas como algo natural e integrantes da fisiologia humana. Com forte influência indiana, de onde a China não se constrange de ter importado o Budismo, o orgasmo representa a completude ou, seja, o alcance do nirvana. Kim Tan-woo explicou, aliás muito bem explicadinho para a Maria Laura: “Tao significa caminho. Mas também, universo. A vida, Laura, é um equilíbrio de opostos. Como você e eu: Yang e Ying. Separados, somos incompletos. Juntos, no orgasmo, no prazer, encontramos a perfeição.”


Portanto, leitores amigues de todos os cantos deste vasto planeta Terra, a sugestão da Prosa hoje, é: vacinem-se, sigam o caminho e orgasmem-se! Afinal, gente triste é gente incompleta.

Ah. Deixe seu comentário e espalhe por aí, viu?


Beijooooooos da Rosa e até a próxima prosa!




Referências:

CHANG, Jolan. O taoísmo do amor e do sexo. O êxtase e a milenar sabedoria do amor. Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1979.

HOOPER, Anne. As posições do Tao. In: ______. Kama Sutra. Técnicas clássicas para os amantes de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997, p. 136-149.

COMO A CHINA lida com o erotismo e o sexo? Carta Capital. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/como-a-china-lida-com-o-erotismo-e-o-sexo-2990/

TAO TE CHING [Verbete]. Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tao_Te_Ching



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