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- Um -

Do ponto de vista de Kárita, transformar-se na garota “para casar” exigia certo esforço. No caso dela, significava, dentre outras coisas, manter-se numa linha imaginária entre o interesse e o desprezo, semeando complacência como se fizesse caridade. Em outras palavras, parecer menos afoita e um pouco esnobe. Também significava evitar palavrões, gírias de cunho gay, roupas justas, curtas ou decotadas, recusar convites em cima da hora e não transar, de jeito nenhum, no primeiro encontro. Embora difícil e chato pra caralho, estava convicta de que Vinícius valia a pena. Por isso, empenhava-se tanto em estudar as “regras” ... para chegar ao altar... com ele.

            O aprendizado parecia esbarrar em problemas operacionais. A capa de O discurso da servidão voluntária se recusava a alinhar-se sobre o manual de instruções para conquistar o homem dos seus sonhos. Já era a quarta tentativa e quando parecia, uau, perfeito, capa de um e livro de outro se desencontravam. Kárita suspirou contrafeita. Novamente refez o alinhamento e ajeitou o clipe cor de rosa, que marcava a última página lida. Anotação mental, preciso mudar essa capa. Livro sobre a mesa, inventariou os objetos que a aguardavam.

            Além da capa filosófica, que sugeria um intelecto refinado, havia uma garrafa de água mineral, uma xícara de café, um churro recheado e um smartphone. O visor do aparelho marcava quinze e trinta. O café ainda conservava o seu calor, mas depois da terceira xícara custava a se mostrar palatável. Já o churro, jazia intacto, pois fazia parte do roteiro cinematográfico que montara para seu encontro “casual” com Vinícius. Na sua marcação de cena, que incluía o livro de La Boeti, estaria levando o churro na mão, como se tivesse acabado de comprá-lo, antes de deixar o aeroporto. Paradinha estratégica, para conferir interessadíssima um trecho da obra, assim que erguesse os olhos das páginas daria de cara com Vinícius, cruzando o saguão na direção do estacionamento. Vini... que surpresa. Entre um abraço amistoso e um beijinho no rosto – no rosto, apenas no rosto, para não se mostrar interessada demais – iria comentar do churro maravilhoso que se vendia na Mister Coffee. Enfiaria um pedaço na boca dele e depois, já adiantando que o recheio extra de doce de leite iria escorrer pelo queixo, recuperaria o excesso com o dedo indicador e o levaria à própria boca, num gesto de tranquila e alegre cumplicidade. Finalmente, os dois caminhariam sorridentes para o estacionamento, onde seu Cooper aguardava.

            Resolvera o roteiro durante a viagem, dirigindo de Zermatt, distrito de Santa Bárbara dos Pinhais, no sul de Minas, até o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Mas, assim que chegara, às quatorze horas em ponto, descobrira que o destino não decorara seu papel. O voo que trazia Vinícius de Campo Grande, e que deveria ter pousado às quatorze e trinta e cinco, estava atrasado. O resultado da sua mineiridade, que sempre chegava mais cedo “para não perder o trem”, já cravava uma hora e trinta de espera.

            Kárita correu os olhos até o final do largo corredor. Conseguira um pequeno refúgio numa mesa da Mister Coffe, que além de estratégica conseguia ser a cafeteria mais afastada do burburinho e do vai e vem de passageiros. Bolsa e agasalho em uma das cadeiras, além de ter um excelente ponto de observação, podia se dedicar à leitura, tendo por companhia apenas a mesa da frente, que continuava vazia. Reabriu o livro, na página marcada com o clipe. Livro e capa se desencontraram de novo, exigindo outro tanto de engenharia. Enfim, concentrou-se na Regra 9, lápis em punho para grifar e fazer anotações. Mas... ali pela terceira página lida, algo em torno do décimo ou décimo primeiro parágrafo, uma grossa voz masculina, calma, mas muito imperativa, chegou em seus ouvidos.

            – Você vai beber um Macchiato. Gelado.

            Kárita quase pulou da cadeira. Por um átimo, acreditou que Vinícius descera dos céus e escolhia seu café, numa rara e inusitada postura imperiosa. Ergueu a cabeça e descobriu que, na verdade, a mesa da frente tinha sido ocupada, sem alarde e barulho nenhum, por um casal. Um homem alto, moreno, de óculos e barba cerrada; e uma mulher, que embora de costas, parecia jovem e muito elegante. O problema é que o homem se sentara na cadeira perpendicular à de sua companheira, colocando-se num ângulo tal, que ele e Kárita estavam, praticamente, um diante do outro. A proximidade era tanta que suas palavras chegavam a ela como se os três estivessem juntos, em um grupo.

            Ele não se mostrava preocupado com a configuração dos assentos. Aliás, parecia muito à vontade com a ligação fictícia entre as duas mesas. Kárita se moveu incomodada, invadida na própria privacidade. Passeou os olhos em volta, disposta a buscar outro refúgio. Foi em vão. Não havia nenhum outro lugar, próximo dali que lhe permitisse interceptar Vinícius sem parecer que esperava por ele. Sem alternativas, deu de ombros. Observou o visor do smartphone, conferindo as horas, e voltou a se fixar no livro, esperando abstrair-se da realidade e daquela proximidade esquisita.

            – Se é do seu agrado, meu senhor, faço como quiser. – a mulher respondeu, de forma igualmente clara.

            Kárita arregalou os olhos cor de caramelo. Prendeu o riso entre os lábios dobrados para dentro da boca. Sério?! Sério mesmo?! No entanto, a sua personalidade, que também era generosa e cheia de empatia, forçou-a a considerar outras opções, além de uma relação estapafúrdia entre gente rica e bem vestida. Talvez a moça estivesse sendo privada da sua liberdade, talvez sofresse maus tratos ou, ainda, e não excludente, quisesse se proteger de toda a sorte possível de violência doméstica. Sororidade, Kárita lembrou a si mesma. E ergueu o rosto para observar o casal e detectar a mais ínfima mostra de que aquela mulher precisasse de ajuda.

            – Abra as pernas, Tina. Sua obediência merece um carinho.

            Kárita não conseguiu evitar a tosse seca e embasbacada. O filho da mãe era um pervertido exibicionista que tocava sua mulher em um lugar público! E ele escolhera aquela mesa, sentara-se daquela forma e falava daquela maneira para que ela ouvisse e, agora, o visse deslizar os dedos da mão esquerda por entre as coxas da moça. E ela os recebia, dentro de si, com um gemido rouco de satisfação. A exibição era tão obviamente para ela, Kárita, que não se surpreendeu quando ele a encarou com um par de olhos azuis escuros e maledicentes, por trás dos óculos de grau.

            O que ele esperava? Que ela saísse correndo? Que fingisse que havia se transformado numa planta e ficasse estática, paralisada, rosto enfiado no livro, como um avestruz entre as letras? Fala sério... Ela estava se esforçando e muito para se tornar uma garota de as regras, preparando-se com o melhor da literatura de autoajuda dos anos 90 para laçar o homem mais maravilhoso e gentil que conhecia. Estava entortando os próprios modos, corrigindo a linguagem e controlando seus impulsos, porque Vinícius valia a pena! Já aquele ali, que a olhava com uma cara de lobo tarado, não passava de um cretino-depravado, que não valia um mísero esforço do seu tempo para se manter na linha. Não, mesmo...

            Kárita fechou o livro, com um gesto leve e calculado. Retribuiu o olhar, desafiante e altiva, arrematando o confronto de vistas com um sorriso de canto, leniente... e sedutor. Reclinou-se na cadeira, esticou as pernas, chegou ao ponto de encostar o bico dos próprios sapatos nos dele. Busto apontando para frente, passou a língua no lábio superior, aguardando. Fez um gesto leve com o queixo, indicando que ele continuasse com a provocação.

            O homem espasmou num sorrisinho surpreso. Virou o rosto um pouco de lado, levando o olhar na direção contrária, evitando “dar na cara” que a reação dela o havia desarmado. Mas se recuperou em segundos. Respirou fundo, retirou os dedos de dentro da companheira e empertigou o corpo. Voltou o tronco, todo ele, para Kárita e ergueu a sobrancelha esquerda.

            – Eu não sei quanto a você..., mas eu gosto de disciplinar. Entende o que eu digo?

            Olhos baixos, alheia ao roteiro que se desenvolvia em torno dela, a mulher que o acompanhava assentiu com a cabeça subserviente.

            – Sim, meu senhor. Eu entendo.

            Kárita esticou os braços... levou-os languidamente ao alto da cabeça, cruzou os pulsos e encostou as mãos na pilastra de concreto armado, às suas costas. Endereçou a ele um olhar entregue, um sorriso brejeiro, os fios do cabelo alisado roçando os lábios. Repassou a língua sob os dentes, ao perceber que ele pousara a mão sobre a coxa da companheira e a apertava com força, olhos fixos e incendiários cravados em Kárita.  

            – Você vai ficar linda, amarrada, com as mãos no alto, completamente nua, com as pernas abertas... pra mim. Eu vou te disciplinar. Posso até te deixar escolher o chicote ou a vara. Mas vou deixar essa sua bunda vermelha como um tomate maduro... E vou te castigar tanto que o único lenitivo para a sua dor, vai ser me implorar pra te eu te comer.

            Kárita espalhou um sorriso no rosto. Desfez a pose de braços, inclinou-se para frente, leve e flexível como uma gata. Trazia os olhos dele consigo, incapaz de se desviarem dela e de seus movimentos. E meneou a cabeça, em uma negativa. Apoiou os antebraços na mesa... piscou um dos olhos para ele e devagar pegou o churro que esperava dentro da embalagem. Segurou o doce salpicado de açúcar e canela, levou-o diante da boca, deleitando-se com o olhar injetado, desnorteado, que ele lhe dirigia.

            – E você vai me chupar...

            Sorriso de dentes claros, abertos de ponta a ponta, Kárita esticou toda a língua para fora da boca, imprimindo no rosto a expressão mais lasciva que conseguiu. Lambeu a extensão do churro de ponta a ponta, de baixo à cima, até encontrar um grosso filete de doce de leite. Teve a fleuma de enfiar tudo o que conseguiu dentro da própria boca, apertando devagar, para que não desmanchasse.

            – Até eu gozar... na sua boca...

            E diante dos olhos ardentes, que acompanhavam extasiados cada um dos seus gestos, chupou o doce de leite, abriu novamente a boca, mostrou a língua, mostrou o doce nela e olhos fechados de prazer, engoliu, passando a língua satisfeita pelos lábios.

            – Sim, meu senhor. Farei tudo o que me pedir...

            Kárita abriu os olhos. Encarou os olhos ainda mais escurecidos e sorriu de novo, deslizando o próprio olhar para a ereção que gritava sob a calça, como se o pau dele tivesse sido embrulhado a vácuo. Ele não disfarçava. Mostrava-se garboso e um certo tanto orgulhoso, pernas afastadas para que ela visse, para que ela pudesse acompanhar o crescendo de excitação que o capturava. A mulher, a companheira sobre quem ele mantinha a mão fechada sobre a coxa, não reclamava da dor. Permanecia solícita, olhos e cabeça baixos, disponível para ele e todas as palavras que proferia, sem fazer ideia do que estava, de fato, acontecendo.

            Um resto de consciência alertou à Kárita que deveria ter sororidade. E foi por isso que esticou brevemente os olhos, para além do homem, das suas taras e perversões. Como um flash intenso de luz, que desperta do sonho, ela viu, do outro lado, a figura esguia de Vinícius Bakker empurrando um carrinho de bagagem.

            – Vini... – sussurrou alarmada, olhos muito abertos, surpresa com o tempo que havia se passado, desde que a libidinagem sentara na sua frente. Foi rápida, atabalhoada, sem pensar duas vezes. Olhos fixos em Vinícius, pegou bolsa, agasalho e smartphone e saiu correndo pelo corredor.  – Vini! Viníiiiciuuuuuus!!!

            O homem que deixara para trás, afogueado e de pau duro, ergueu-se de um salto. Também sem pensar duas vezes, correu atrás dela, sabendo exatamente o porquê, mas sem nem imaginar o que diria ou o que faria se a alcançasse. Quando chegou perto o suficiente, para vê-la se lançar ao pescoço de um rapaz de cabelo loiro avermelhado e receber um delicado beijinho no canto da boca, parou, estacado. O casal seguiu de braços dados, conversando alegremente, rumo ao estacionamento do aeroporto. Ele emitiu um muxoxo inconformado, entendendo que havia perdido a oportunidade e a mulher. Chateado, cabisbaixo, voltou para a mesa, na qual deixara sua companheira. Ela o aguardava, olhos interrogadores, sem saber o que motivara aquela saída abrupta.

            – Eu fiz alguma coisa, meu senhor?

            Ele meneou a cabeça, numa negativa. Não estava mais a fim de falar. Em resposta, fez apenas um carinho nos cabelos dela, se perguntando quanto tempo ainda levaria para Valentina entrar no avião e voar para Roma. De repente, percebeu que não sentiria nem uma grama de saudades. Não de Tina.

            Viu o livro sobre a mesa. A Cinderela safada, com quem ele dançara há pouco, deixara para trás não um sapatinho, mas... o Discurso da Servidão Voluntária, de Étiene de La Boetié. Nada mais adequado, pensou. Era um clássico da filosofia, que discutia as contradições entre a servidão e a tirania. Pegou o livro, o seu butim. Aquilo lhe serviria para se lembrar de um jogo tórrido que, infelizmente, não se concretizara. Dedos tocando levemente o livro, compreendeu que sentiria saudades dela, como numa música antiga, “de tudo o que eu ainda não vi”. Para sua surpresa, a capa escorregou e ele percebeu, estarrecido, que se tratava de uma capa falsa. E apesar de não ter um pingo de senso de humor e raramente sorrir, riu muito, entregando-se a uma gargalhada gostosa, observando o livrinho de capa azul clara, no centro do qual um casal de noivinhos se beijava sobre um grande bolo de casamento. As trinta e cinco regras para conquistar o homem perfeito.

            – Ah, sua cachorra... 

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Agora que você já conhece o primeiro capítulo de "O Contrato" e sabe que essa história promete, compartilhe em suas redes sociais. 

O Lançamento está previsto para o segundo semestre de 2021, tá? 

 

Beijooooooos da Rosa e até lá! Me aguarde!