Vamos falar sobre Fantasia Erótica?


Quando comecei a delinear o meu livro, Apenas por Hoje, minha inspiração inicial foi o primeiro romance de banca que li na vida. E isso foi lá no século passado, quando eu tinha os meus doze ou treze anos. Não lembro mais o título do danado, mas era uma história de amor que envolvia um espião russo e uma moça desavisada, mantida sob sua constante vigilância, numa mansão no sul da França. Na época eu nem sabia o que era Síndrome de Estocolmo, mas até hoje eu acho muito sexy a imagem que me ficou do livro: o casal dormindo no mesmo quarto, em camas separadas, e a moça observando as gotículas de suor que se formavam nas costas largas do rapaz...


A temática é a mesma no sucesso 365 Dias, no qual desponta aquela “coisa” chamado Michele Morrone. E, ainda como exemplo, um dos clássicos de Pedro Almodovar, do tempo em que o Antônio Banderas era gatinho e eu e minhas colegas de faculdade achávamos divertido provocar os meninos, juntando as mãozinhas acima da cabeça e pedindo: Ata-me! Eles corriam.


Quanto ao meu novo livro, se já te contei lá em cima da minha inspiração inicial, você não vai se surpreender ao descobrir que a história narra o encontro amoroso de um casal improvável, formado por um agente coreano e uma escritora que, depois de ver o que “não era para seus olhos”, acaba prisioneira desse homem lindo, cuidadoso e sedutor.


Em se tratando de 365 Dias, é claro que não faltam críticas, em sua larga maioria procedentes. Basta um único “Google” para se encontrar variados artigos, dos mais diferentes tamanhos e formas, denunciando toda a sorte de pestilências presentes no filme, nascido de um livro homônimo polonês. Mas eu te confesso que uma emoção tênue, fugia, de desconforto mesmo, me acometia sempre que eu lia as críticas. Fiquei pensando muito sobre isso porque, honestamente, detestei 365 Dias e não consegui nem chegar ao final. Pulei de menos da metade logo pro fim do filme, descobri que a moça morreu e pronto. Ufa. Assisti. E já que estamos numa vibe super sincera, te adianto que detestei 50 tons de cinza e que pulei páginas e mais páginas do livro, porque não dava conta de ler. E já indo direito pro final, descobri aliviada que o romance não tinha dado certo. Quiseram me emprestar os outros livros, mas declinei. Pra você ter uma ideia, não não animei nem com os filmes...


Mas, voltando a 365 Dias, fica a pergunta: o que me incomoda, se de resto acho tudo muito ruim? Em primeiro lugar me incomoda a virulência das críticas. Me assusta a violência com que se rebate 365, destacando dele apenas a perversão e definindo por tabela, como erro e errado, qualquer interesse ou pessoa interessada nele. Eu não vou fazer coro aos argumentos e críticas, porque realmente me parece que tudo ali não tem muito sentido e se transposto para a realidade, Deus me livre! É horrível mesmo.

Mas... há um aspecto que se nega no discurso que desqualifica o filme e que, no meu entendimento, é a chave para se entender o seu sucesso. Me refiro à erótica feminina. Mais especificamente à fantasia de ser objeto de atenção e de cuidado absoluto de um homem bonito, sexy e poderoso, ali interpretado pelo Michele Morrone. Se eu bem me lembro do que assisti do filme, ele é, na vida da personagem principal, a Laura, o contraponto à um casamento de merda, com uma vida sexual de merda, com um marido de merda, feio, pobre e canalha. Isso é verossímil. Percebe? E ali se dá o vínculo com a realidade e o gancho que captura a expectadora, pois permite identificação com a Laura e a sua realidade, da qual vale a pena escapar!



Dito de outra forma, é mais fácil encontrar no nosso dia a dia o ex-marido cretino da personagem principal, do que o sequestrador boa pinta, alto, forte, sarado, rico, bom de pegada, bom de cama e com excelentes opcionais de fábrica... Salvo engano, este é o mesmo perfil do Christian Grey. E, com certeza, também é o mesmo perfil de Kim Tan-woo, personagem principal de Apenas por Hoje.


Isto posto, penso que todos esses personagens têm um elemento comum que funciona como aditivo importantíssimo para o seu sucesso (E, sim, eu coloquei o meu Kim Tan ali no meio, na expectativa de alavancar o seu cachê!). Estes homens fictícios são personagens de romances, construídos intencionalmente para satisfazerem uma necessidade da fantasia. São elementos de peças de entretenimento e, como tal, servem à evasão do concreto e como inspiração erótica. Não são reais.

Trazidos para a realidade, se existissem na realidade, seriam perigosíssimos. Inclusive o meu próprio Kim Tan. Mas não são.


Por isso, acho importante as discussões suscitadas pelos livros e filmes, mas não considero sensato tratar como erro e errado a fantasia que evocam ou "cancelar" quem gosta dela. Nestes tempos ultra conservadores é importante lembrar que a sexualidade é direito. E que todo mundo, maior e vacinado, de forma sã e consensual, deve exercê-la do jeito que bem entender. E já que o tema é controverso, nada melhor do que encerrar a prosa de hoje com uma frase do Nelson Rodrigues: “Se cada um soubesse o que outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava...”


Beijooooo da Rosa,

E até a próxima prosa!

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