Lembranças que valem a pena


Olá amores e amoras. Vou pular a referência histórica ao fatídico 31 de março de 1964, quando a democracia foi ceifada e uma longa noite escura se abateu sobre o nosso país. Também não vou fazer qualquer referência ao descalabro de chamar golpe de “movimento”. Já passei da idade, do peso e de muitas aulas de educação moral e cívica.


Reconheço que se aprendi alguma coisa, aprendi a cantar todos os hinos militares, incluindo o cisne branco da marinha. Contudo, se existe uma lembrança boa dessa época de escola – e confesso que há, pois eu era “piá” (e quem entender a piada pode rir ) – diz respeito à turma do fundão, na fila de final da aula, no pátio da “Escola Estadual Bom Jesus”, de Uberlândia. Era um negócio meio infernal, aquela arenga de enfileirar os meninos depois da aula, para a sessão cívica de cantar o Hino Nacional. E, felizmente, nunca tivemos a cerimônia de hasteamento da bandeira, até porque nem tínhamos bandeira.


E a diversão, Rosa? Bom, a diversão era que ao som de um velho vinil arranhado, que se sobrepunha às nossas vozes desafinadas, alguns piás de índole naturalmente anárquica, dentre os quais, obviamente me considero, emplacavam o hit do momento: “tim, tim, iogurte vigor... tim, pedacinhos de fruta vigor...”. É, amores, eu cantava sob o hino. Há plenos pulmões. Hoje eu diria que se tratava da mais genuína e pura resistência. As tias da escola já pensavam diferente.


Houve um dia em que uma delas percebeu o burburinho. Acho que a minha cara sempre contava as artes. De qualquer forma, ela desligou a “vitrola” e já foi logo perguntando “o que está acontecendo aí no fundo?!”. Meu coleguinha Marco Túlio e eu, interrompemos imediatamente o brinde, e levamos as mãozinhas ao peito estufado de orgulho anarquista. Deu nada não.


De qualquer forma, esta é a melhor lembrança. Tá vendo que nem só de putaria vive esse blog? Pois é, amades. Tia Rosa Maria escreve também sobre memórias. Bom, mas já que estamos aqui, não custa nada sacar destes guardados algumas lembranças nem tão cívicas...


É claro que entre um hino e outro, dia da árvore e afins, eu também vivia de castigo. Olha, se eu for deslindar o sem fim de vezes que me colocaram de pé diante da parede, vai faltar parede. Mas só houve uma que, verdadeiramente nunca me esqueci. E se tornou uma espécie de lembrança em duas etapas, que uma vez aneladas, me rendeu um dos momentos mais peculiares da minha vida.


Explico. Havia um garoto. Claro, como não haver, neh? Era um menino loirinho, de olhos verdes, nariz meio arrebitado e sardas. Nada de mais. Ele era até meio franzino e com o cabelo espetado caindo nos olhos. Silvinho. E vai que um dia, para me punir e me envergonhar (ah, coitada!), a professora resolveu me colocar sentada do lado do Silvinho! Sabe, eram aquelas carteiras de dois lugares, nas quais sempre se sentavam meninas e meninas, meninos e meninos. E lá fui eu, rindo daqui até Parati, me sentar ao lado do magrelinho. Olha, não me pergunte por que raios eu enfiei a mão nas coisas do menino. Sei lá, tava sem fazer nada... Ou a aula não era mesmo interessante. O problema é que o Silvinho se ressentiu da aproximação indevida – e com toda a razão, é lógico – me dedurou pra professora! Aos gritos. Professora, a Rosa tá pegando no meu pinto!


Sério, foi um vexame. É claro que tratei de desconversar e mentir na cara dura que eu estava só querendo pegar um lápis que tinha caído no chão. Mas foi mais do que suficiente pro garoto me odiar pelo resto dos nossos dias na escola primária. A história ficou lá, submersa na memória por anos, décadas. E por ali ficaria, sem jamais ser acessada novamente, não fosse o encontro absolutamente casual, que se deu entre e eu e o meu antigo desafeto, vinte e nove anos depois... na porta de uma igreja!


Eu estava com uma amiga, que havia me convidado pra ir a um casamento. Nunca gostei muito de ir em cerimônias de gente que não conheço. Mas, era numa das igrejas mais charmosas da minha cidade, localizada no bairro histórico do “Fundinho”. Chegamos mais cedo e esta minha amiga, que era mais conhecida do que nota de dez, já se aproximou de um grupo de outros amigos, que também aguardavam na porta. Um deles, um sujeito enorme, de mais de um metro e oitenta, estava escorado num dos carros. Achei a pessoa um negócio de interessante. Sério. Bonito mesmo. Muito alto, magro, cabelos loiros avermelhados, cortados rente a nuca, nariz cheio de sardas, mas com uma cara de “ai meo deos do céu, o quê quê isso, minha nossa senhora dos parquinhos....”, que vamo por respeito!


Fui apresentada a todos, de forma ampla. Gente, essa é a Rosa. Rosa, este é fulano, ciclano e... o Sílvio.Siiiiiiiiim. O Sílvio! E o tal do Sílvio, escorado no carro estava. Escorado no carro ficou, olhos verdes passeando no meu rosto, com aquela cara que eu já te contei acima. É óbvio que assim que a minha amiga disse o nome dele, eu me lembrei. Mas ele já havia me reconhecido, no exato momento em que apareci. E dali, depois da apresentação, sequer me ergueu a mão, gente! Canalha. Rsrrss. Com uma voz grossa, muito encorpada e sexy, pelo amor de Deus, como aquilo era sexy, ele disse:

– A Rosa eu já conheço...


Não deu outra. Meus olhos foram direto para “as coisas dele”, exibidas sob a calça, ao sabor benevolente da natureza e numa sem cerimônia tal, que chegava a ser um desagravo. Oh, glória! Eu não sabia se ria, se desviava aos olhos, se continuava olhando ou se encarava aquele rosto que, sim senhor, era um convite a todos os pecados pecaminosos, justo na porta da igreja! Hoje eu rio. Muito. Mas no dia suei de nervoso...


Nunca mais vi o Silvinho e suas coisas inesquecíveis. E naquele casamento, que nem lembro de quem era, acho que ele bem poderia ter me pedido uma mãozinha pra ajudar a curar um trauma de infância. Se é que tinha algum...

De qualquer forma, não custa nada usar o espaço do blog pra deixar um recadinho do coração e reavivar momentos que, de fato, valem a pena ser lembrados. Então...


Silvinho, amado, onde anda você? Me liga. Bora recordar os bons tempos...!

Beijos da Rosa e apareça na próxima prosa.


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