CONFISSÕES DE UMA ESCRITORA CHATA



EU SOU CHATA. E te digo mais: sou uma escritora de romances, que não tem saco pra ler... romances. Não os do tipo que eu escrevo. Certo.

Soa pedante, arrogante, chatéééééérrimo. É, eu sei. Esse é o título. Eu sou chata, velho. Pra um caralho...


Voltemos aos romances. Eu gosto de escrevê-los, mas não gosto de lê-los. E dos que eu li, foram muito poucos os que gostei. Exemplo? Bom, gostei do Amante, de Marguerite Duras. Nossa, como eu me excitei com aquilo e como eu me angustiei... Por isso, o Amante também é, para mim, uma obra detestável. Não tem final feliz. E eu gosto de finais felizes. Esse é o pacto, meu amor. Entre romancistas e leitores. Sério, Rosa? Não gostou de nenhum romance?! Menos. Há romances oitocentistas que eu adoro. E nunca é demais lembrar que a literatura romântica do século XIX é o terreno sobre o qual vicejou a chamada "literatura cor de rosa", os deliciosos romances de banca, publicados por metro pela Harlequin Books. Quem nunca leu um Sabrina, que atire a primeira pedra, né Amora? Li aos quilos quando eu era adolescente.


Quer outro bafo? Foi a partir de uma coleção específica, a Intimate Moments, no Brasil Momentos Íntimos, que se abriu caminho para divas do gênero Hot, como Sylvia Day e Erica James. É lógico que sem Daniele Steel, esse povo também não seria ninguém. Mas não li. Depois de certa idade fiquei chata pra caramba e não dou conta de passar da primeira página. Eu luto. Juro pelo o que há de mais sagrado, que luto bastante. Mas não consigo.


Então tá. Sou uma escritora de romance que adora escrever romances, mas não gosta de lê-los. Ou, talvez, não tenha ainda sido tocada “lá”, naquela corda delicada, profunda, que marca a excitabilidade arrogante de todo escritor que se julga bom. Sou dessas. Ainda não encontrei um autor ou autora, que conseguiu alcançar o meu ponto G romântico. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Sigo em busca. Não se preocupem.


Gosto de muita gente e de muita coisa. A começar das crônicas, deliciosas, de Fernando Sabino e todos aqueles escritores fantásticos que publicaram na coleção “Para Gostar de Ler”. Li todos. Também sou fã do Luís Fernando Veríssimo e seu impagável Analista de Bagé, mais ortodoxo que rótulo de Maisena. E do pai dele, o Érico Veríssimo, com seu magistral O Tempo e o Vento. Ah... Clarice Lispector. Clarice, sua linda...! Suas palavras, seu arrojo, sua profundidade. A capacidade de oferecer um mundo de complexa sensibilidade em um único parágrafo, em uma única frase. Lygia Fagundes Teles e meu inesquecível Baile Verde. Antes. O que acontece antes do Baile Verde... E por falar em verde, eu me lembro do Lagarto, do João Ubaldo Ribeiro e seu sorriso. E, claro, do mesmo João, que bebe agora na casa de Deus, A casa dos budas ditosos, onde o autor se dá uma voz de mulher. Patifaria, João... Das boas, muleque!


Gosto também daquela coleção infanto juvenil, lembra da Coleção Vagalume, que líamos na escola? Meu preferido, O escaravelho do diabo. E nasceu dali, do meu fascínio por aquela trama, a minha paixão por Agatha Christie. Li muitos livros da dama do suspense, não todos, claro que não, mas acho Miss Marple a melhor detetive de todos os tempos. E, não, eu não gosto do Assassinato de Roger Ackroid. Só não dou spoiler porque a comunidade de leitores de suspense iria contratar um sniper pra me silenciar. Mas detesto. Acho uma falta de respeito. Pronto, falei. E da minha paixão adolescente pelo suspense, encontrei, já na idade adulta, O nome da Rosa, de Umberto Eco, que marcou a minha vida acadêmica e a minha carreira como escritora. Veio com este livro a vontade de escrever mais do que romances do tipo Sabrina, Júlia e Bianca. Entende?


Na linha do tempo, há vários outros, que eu adoro. Dos autores atuais, por exemplo, amo o Jô Soares, sou fã de carteirinha do Shangô de Baker Street e simplesmente adoro imitar o Doutor Watson receber a Pombagira. Também gosto de Geraldine Brooks, conhece? Escreveu um livro fodástico, As memórias do Livro. Nossa, lê! Muito bom. Outro, bom pra caralho, também, o Carbono Alterado, do Richard Morgan. Tenho flertado, ainda, com O Círculo do Dave Eggers, mas como só comecei, não sei onde vai dar nem se vou gostar. E, por fim, o meu preferido, Dan Brown. Mais especificamente, o Dan Brown de O código da Vinci. É esse o estilo de narrativa que me seduz. Alicerçada sobre uma pesquisa meticulosa, ergue-se um edifício ficcional narrado com ritmo, marcação, cadência – inclusive pausa para respirar – dentro de uma trajetória alucinante. Quero escrever assim, quando eu crescer. Há uma estrada pela frente, porque escrita se faz todo dia, com leitura e com esforço. Mas espero que um dia, em algum lugar do olimpo literário, os sinos dobrem por mim. Como um Amém. Né, Hemingway?

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